O Burnout no Trabalho e na Pandemia – segundo a Psicóloga Catarina Henriques.

Voltando ao tema da importância da nossa saúde para uma boa performance no trabalho, tive a oportunidade de conversar com a Catarina Henriques, Psicóloga Clínica em Rio Maior. 

Catarina Henriques é Mestre em Psicologia Clínica, pós graduada em Psicologia Educacional; Membro Especialista em Psicologia Clínica e da Saúde pela Ordem dos Psicólogos Portugueses; É ainda Fundadora do Projeto de Psicologia para a Comunidade associado às Juntas de Freguesia do Concelho de Rio Maior; Psicóloga no Centro de Recursos para a Inclusão do CEEONINHO Rio Maior e desenvolve diversos trabalhos com crianças, jovens e adultos.

A Catarina tem acompanhado atentamente as questões relacionadas com o trabalho e os problemas mentais que daí advém e eu tive curiosidade em perguntar o porquê de a nossa sociedade estar a enfrentar cada vez mais esgotamentos e depressões, sobretudo durante esta pandemia. Quis compreender como estão as pessoas a lidar com toda esta mudança. 

Deixo-vos a opinião da Catarina, a explicação clínica e o enquadramento geral daquilo que estamos a ultrapassar.

O Burnout no Trabalho e na Pandemia – segundo a Psicóloga Catarina Henriques. 

Recentemente fomos obrigados a parar. Simplesmente ficar em casa e protegermo-nos de um virus que nos pode matar. Assustador, não é? Durante o tempo de confinamento, enquanto psicóloga clínica e educacional, fiquei muito preocupada com os meus pacientes e com os alunos que acompanho. Imaginei que o medo, a angústia, o desespero de toda a situação de sermos retirados da nossa “normalidade” abrutamente ia fazer muitos danos a nível psicológico. E claro que todos, inclusive eu, ficámos apreensivos. No entanto, se eu vos disser que tive pacientes que recuperaram durante este tempo, acreditam? É verdade. Os meus pacientes que sofriam de Burnout precisavam desta pausa. Precisavam voltar a casa e terem tempo de qualidade para descansar, para estar com a família e desligarem a ficha automática associada ao trabalho. Precisamente porque a Síndrome de Burnout está exclusivamente associada ao contexto laboral, estas pessoas puderam respirar de alívio por algum tempo. Claro que o teletrabalho também teve os seus desafios, principalmente por ser novidade para a maioria das pessoas, mas às vezes são os ambientes em si que adoecem as pessoas. Para entenderem um pouco melhor do que falo, começo por explicar o que é então o Burnout.

O que é?

O termo deriva da expressão da língua inglesa to burn out, literalmente traduzida como “chama que se extingue” pelo esgotamento dos recursos disponíveis para permitir a sua manutenção (Schaufeli, Leiter & Maslach, 2009). Ou seja, a Síndrome de Burnout caracteriza uma pessoa que chegou ao seu limite e se sente esgotada. É considerado um distúrbio psíquico de caráter depressivo cada vez mais frequente entre os portugueses. No entanto, desvincula-se da depressão, do stress habitual, da ansiedade, pois para ser considerada Síndrome de Burnout, necessariamente, todo o cansaço físico, mental e emocional tem de estar associado ao trabalho. Foi recemente considerada pela Organização Mundial da Saúde (OMS) a lista onde se inclui esta síndrome. Esta lista entra em vigor em Janeiro de 2022, e nesta é reconhecida oficialmente na Classificação Internacional de Doenças (CID) como um problema associado ao emprego e desemprego.

Como acontece?

Cherniss (1980) considera a existência de três etapas do desenvolvimento de burnout: fase de stress – desequilíbrio entre exigências profissionais e os recursos ao dispor do trabalhador; fase de esgotamento – respostas crónicas de cansaço, preocupação e ansiedade desadaptativa por parte do trabalhador; e fase de esgotamento defensivo – o trabalhador altera o seu comportamento de modo a lidar com a sua vida profissional, originando tendências nocivas de cinismo, ceticismo e negatividade.

O que faz acontecer?

Na verdade para isto acontecer existem variadas causas a ter em conta, nomeadamente, características do trabalhador em si e características das instituição/organização. As variáveis pessoais do trabalhador que o podem tornar mais vulnerável ao burnout estão associadas à sua personalidade e postura profissional. Contudo, as mais pertinentes estão particularmente ligadas aos mecanismos de coping ao seu dispor. Estes podem reduzir a tolerância do sujeito perante stress, frustrações e/ou conflitos interpessoais (Maslach, Schaufeli, & Leiter, 2001). Relativamente às variáveis institucionais, podem ser indicados enquanto fatores de particular relevância a estrutura da organização (capaz de causar stress caso seja pouco definida ou demasiado rígida). Esta estrutura também engloba: o tamanho da organização e os níveis hierárquicos nela presentes; a autonomia dos trabalhadores; a supervisão (significativa para a qualidade do clima organizacional, pois supervisores que apresentem altos níveis de burnout poderão contaminar os trabalhadores que supervisiona); ambiguidade (papel profissional pouco definido, com reduzidos benefícios pessoais); clima organizacional (existência de um ambiente laboral tóxico); relações interpessoais; expectativas profissionais (particularmente tarefas institucionalmente impostas irreais e horários de trabalho excessivos) e sobrecarga de funções (Álvarez, 2011). Quando conjugados, estes fatores têm elevadas probabilidades de originar stress laboral no trabalhador que pode progredir patologicamente para a Síndrome de Burnout.

Quais os sintomas?

Como já tivemos oportunidade de observar, o desenvolvimento desta síndrome “decorre de um processo gradual de desgaste emocional e desmotivação acompanhada de manifestações físicas e psíquicas. Desta forma, os sintomas físicos da síndrome de burnout incluem: dores de cabeça constantes, tonturas, alterações no sono, problemas digestivos, falta de ar, excesso de cansaço. Já os sintomas psíquicos da síndrome de burnout podem ser: ansiedade, dificuldades de concentração, variações de humor, perda de motivação no emprego e ficar isolado dos colegas de trabalho. Além disto, outros sinais da Síndrome de Burnout incluem o indivíduo demorar muito tempo em realizar as suas tarefas profissionais, assim como faltar ou chegar atrasado muitas vezes ao trabalho”.

Tecnologia

Somos a geração da conectividade e tecnologia e essa característica do mundo moderno também tem consequências para o mundo do trabalho. Estar acessível 24h por dia é algo que nos retira a privacidade e os momentos de descanso. Em 1990 era impensável ligar para casa de alguém às 22h00 a não ser que acontecesse algo muito grave. Hoje em dia é provável que a essa hora ainda estejamos a receber emails do trabalho. Cary Cooper é investigador da Manchester Business School e autor de estudos sobre relação entre emails e stresse no trabalho; segundo ele “cerca de 40% das pessoas acordam e a primeira coisa que fazem é ver emails, e para outros 40%, é a última coisa que fazem à noite”. Esta obsessão em verificar emails e informações, fora do ambiente de trabalho, torna mais difícil que “nos desliguemos nas horas de folga”. Algumas empresas já identificaram o problema e tentam intervir da forma que podem. A Volkswagen, por exemplo, em 2012, começou a bloquear contas de e-mails dos funcionários quando estes estavam de férias. Outra empresa, a Daimler, permitiu que os seus empregados ativassem uma funcionalidade que apaga todos os emails referentes ao trabalho, durante o período de férias. A questão tem se agravado tanto, que na França já há uma lei trabalhista que incentiva as empresas a tomar medidas similares à dos exemplos anteriores.

Tratamento

O tratamento implica melhorar as circunstâncias e condições que originaram o problema, como a melhoria das condições de trabalho, a melhoria das relações profissionais com diminuição do isolamento e uma melhor integração do profissional. Muitas vezes (como aconteceu durante o confinamento), “implica a retirada temporária – que pode ter de ser definitiva – do trabalhador daquele local de trabalho, a reorganização do trabalho, um investimento noutros interesses como um maior convívio com a família ou os amigos, a prática de exercício físico ou de atividades relaxantes. A psicoterapia também pode ajudar a pessoa a compreender melhor as razões que a levaram ao problema e a evitar procedimentos semelhantes aos que originaram o burnout”.

Neste momento, “a implementação de melhores condições de trabalho, o combate ao assédio sexual, a obrigatoriedade de existir um médico do trabalho e técnico de segurança em muitas empresas, são algumas das muitas medidas que têm contribuído para melhorar as condições do trabalho, mas ainda falta muito para que se atinja o equilíbrio perfeito necessário a uma vida saudável.” E que não seja necessário chegar a extremos, como viver uma pandemia que nos faça parar. É imprescindível que façamos a nossa paragem, a nossa desconexão do mundo profissional, para nos permitirmos viver tudo o resto. A vida não pode ser só trabalho, muito menos se é um trabalho que nos adoece progressivamente.  

_________________________________________________________________________

Incrível não é?

Pense mais em si e nas suas pessoas. Conheça mais sobre a importância da saúde e bem-estar para uma boa performance no trabalho aqui.


0

Adriana Silva

Sou a Adriana Silva.

Sou Licenciada em Relações Humanas e Comunicação Organizacional e Mestre em Marketing Relacional.

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *